Congresso Missionário

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Conferência Bíblica LCD: “Levanta-te, Clama e Derrama o teu coração” (Lamentações 2:19)

Tema: “Levanta-te!”

A expressão “levanta-te”, contida no versículo 19 de Lamentações 2, requer que perguntemos algo acerca do desejo e da vontade e como isso atua no processo missionário. O que vem primeiro? Li alguns artigos científicos sobre o que motiva o quê? É a vontade que produz o desejo ou é o desejo que promove a vontade? Talvez seja interessante que o leitor faça a sua própria consideração sobre este assunto.

A expressão “levanta-te” aparece mais de 50 vezes na Bíblia, em contextos bem diversificados. Será bom referir alguns:
Num contexto de fraqueza e debilidade, um dia Israel precisava atravessar o rio Jordão e vencer os grandes gigantes, os filhos de Anaque (altos e grandes); foi preciso a voz do encorajamento dizendo: “levantemo-nos e possuamos a terra que o Senhor jurou dar a nossos pais…” (Números 13:30). Uma boa parte das vezes nós precisamos apenas de confiar na promessa já proferida por Deus.

Num contexto de pecado, quando o povo de Israel estava em peregrinação e pensavam no Egipto em vez da terra prometida (alguém disse que “Deus tirou Israel do Egipto num só dia mas levou 40 anos para tirar o Egipto de Israel”), o Senhor disse a Moisés: “levanta-te, desce depressa daqui, porque o teu povo, que tiraste do Egipto, já se corrompeu…”(Deuteronómio 9:12). Muitas das nossas não vitórias são por causa do pecado que permanece (falta de santidade) no meio do povo de Deus.
Num contexto de desânimo, depois de uma valente derrota, em Ai, por causa de um erro estratégico de Josué, que achou que não valia a pena subir à peleja com tantos homens porque achavam que eram poucos os inimigos, e vencido pelo desânimo, o Senhor disse a Josué: “Levanta-te! Porque estás prostrado assim sobre o teu rosto?” (Josué 7:10). Muitas vezes achamos que somos senhores da situação e que conseguimos ter controle sobre as circunstâncias e por isso sofremos derrotas desnecessárias.
Num contexto de completa desvantagem, Gideão entendeu que a batalha feita com O Senhor não precisava de muita gente, mas sim das pessoas certas. Deus mandou que Gideão selecionasse apenas aquele grupo de soldados que levou a mão à boca e não os que se ajoelharam. O Senhor disse a Gideão: “Levanta-te, desce contra o arraial porque o entreguei nas tuas mãos” (Juízes 7.9); venceram a batalha apenas com o barulho dos cântaros. Tantas são as vezes que nos esgotamos em esforços humanos na tentativa de fazer um ministério celestial, e tantas são as vezes que falhamos missionariamente porque colocamos as pessoas certas nos lugares errados. Nem sempre precisamos que a vitória seja muito esforçada, pois com Deus do nosso lado a vitória mais difícil é possível.
Que diremos a respeito do profeta Elias, depois da batalha vencida diante dos profetas de Baal, caído em exaustão, frustrado porque imaginava que as coisas corressem de forma diferente…precisou que o Senhor lhe dissesse: “Levanta-te e come”…(1Reis 19:5).
O que podemos dizer ainda das palavras de Neemias, quando num contexto de completo desencorajamento, soam as palavras que marcam a história do povo de Deus: “Levantemo-nos e edifiquemos”…

Há uma característica em todos estes e outros exemplos: a ação determinativa do “levanta-te” esteve sempre presente…

A Obra missionária só pode se feita por servos de Deus que se levantam e conjugam a motivação de Deus com a determinação humana; verdadeiramente, é quando estas duas qualidades se articulam que a Obra se faz e avança…

Todos nós temos sentido a voz encorajadora do “levanta-te” em algumas alturas de maior desânimo; algumas vezes ela soa de forma enfática, como que dizendo que já estamos em inércia há tempo demais (como no caso de Abraão, a ordem foi: “sai já”, pois Abraão tinha-se acomodado em Padã-Harã por 20 anos); outras vezes a voz soa de forma mais reabilitadora, dizendo “levanta-te, que eu ajudo-te”…

Vamos parar um pouco em Jonas, antes de ir para Lamentações.
Fazendo algum jogo com as palavras da mesma raíz, descobrimos algumas ideias interessantes. Gosto de deter-me em Jonas 1:2, a palavra ali é “dispõe-te…vai…”, contrastando com 1:15, que diz: “levantaram a Jonas”; aqui há uma completa ausência de vontade por parte de Jonas (ele foi levantado, quase à força). Em Jonas 3.2, o Senhor repete a mesma ordem que em 1.2, usando a mesma palavra “dispõe-te”.
Há, porém, uma grande diferença entre a ordem do capítulo 1 “proclama contra ela, porque a sua malícia subiu até mim” e a ordem do capítulo 3…”proclama contra ela a mensagem que eu te digo”. Apesar de ser soberano, O Senhor não arriscou uma nova fuga de Jonas. Desta vez O Senhor não deu chance a Jonas; agora ele já não tinha que opinar acerca do seu entendimento sobre a condição espiritual dos ninivitas mas sim entregar a mensagem que O Senhor lhe diria…Diz o v. 3 “levantou-se, pois, Jonas e foi a Ninive…

Eu creio que o entendimento desta verdade faz uma grande diferença na obediência dos discípulos de Cristo. Nós não somos chamados a determinar a condição do mundo perdido; nós somos chamados a levar a mensagem que nos foi entregue. É isso que tem motivado tantos que se têm levantado para ir…

Uma boa parte das vezes, até mesmo em algumas conferências missionárias, tendemos a discutir a condição dos pecadores, quando na verdade esta não é mais a nossa tarefa. O processo missionário pede-nos que entreguemos a mensagem que nos foi confiada e nunca que discutamos a condição dos pecadores…(a síndrome de Jonas levou-o a questionar uma implicação com a qual ainda nos detemos, que tem a ver com a determinação teológica da salvação do pecador). Muitos partilham da síndrome de Jonas ainda hoje, perdidos numa discussão sentada a respeito da soberania na salvação. A segunda ordem dada por Deus a Jonas retira-nos por completo o espaço de discussão a respeito da salvação dos pecadores, para nos levar para o patamar da proclamação da mensagem, encerrada na “fé que uma vez foi dada aos santos” (Judas 3).
“Levanta-te, vai e proclama a mensagem que eu te der” (3:3). O processo missionário não pode perder por ficarmos sentados a discutir aquilo que não tem discussão. A mensagem que Deus manda que entreguemos não tem lugar a discussão. Somos mensageiros, e o mensageiro em lado algum está preocupado com outra qualquer coisa que não seja entregar a mensagem que lhe foi confiada. Não podemos permitir que as nossas discussões teológicas nos mantenham sentados, perante uma “Ninive” cuja malícia continua a chegar até os céus…

Vamos a Lamentações 2:19. Este é o versículo que serviu de suporte e de perceção à conferência LCD – “Levanta-te, clama e derrama o teu coração”…

Muitos estudantes das Escrituras saltam por cima de Lamentações. Sentimos que reduzida inspiração existe neste livro, composta por 5 lamentações (a 1ª, 2ª, 4ª e 5ª lamentações são de foro coletivo, mas a 3ª lamentação é mais pessoal e percebe-se uma grande réstia de confiança do profeta no que Deus vai fazer por Israel (3:21-25).
Se nós tivéssemos estado em Jerusalém quando, em 587aC, ela foi destruída, e não chorássemos e lamentássemos o que aconteceu, seriamos pessoas bem duras de coração e insensíveis para com o sofrimento humano. Jeremias teve muitas razões para chorar! Ele viu ou soube do cerco, das penúrias, dos assassinatos que resultaram da invasão babilônica, descritos também em 2Reis 25. O capítulo 2 de Lamentações é assustador; nos versículos 18 e 19 diz: “Que os teus lamentos e gemidos, ó Jerusalém, subam até ao Senhor! Não cesses de chorar, dia e noite; deixa correr as lágrimas como um rio. Não procures reconfortar-te, antes, dá largas ao teu pranto! “Levanta-te e enche a noite, hora a hora, com os teus lamentos. Abre inteiramente o teu coração na presença do Senhor. Estende para ele as mãos em súplica, para que os teus filhos vivam, eles que morrem de fome às esquinas de todas as ruas.”

Hoje, defrontamo-nos com situações que nos partem o coração e não choramos. Hoje queremos somente alegria, mesmo que ela seja forçada, fabricada. Queremos cultos alegres porque não sabemos chorar, não alcançamos a necessidade da contrição (não sabemos o que é estarmos vestidos de saco e sentados na cinza). Hoje, ninguém tem coragem para convidar o povo de Deus a juntar-se para um culto de contrição pelos pecados coletivos. Ninguém aparece! Não devemos ter medo de chorar, sobretudo na presença de Deus, onde devíamos estar mais contritos pelos nossos pecados que orgulhosos pelos nossos feitos.

Sairemos abençoados na nossa missão se lermos com regularidade o livro de Lamentações de Jeremias e deixarmos que O Espírito Santo nos instrua acerca das condições espirituais do povo em Jerusalém, que em nada são diferentes das condições que vivem as pessoas que estão à nossa volta, no nosso mundo.
O sofrimento individual já não é hoje comunitário como foi no passado, ou mesmo como a Palavra nos pede: “levai as cargas uns dos outros”; “sofram com os que sofrem”; “se o teu te irmão te pedir para ir com ele uma milha, vai com ele duas”… De acordo com Deus ninguém deve chorar sozinho, nem sofrer sozinho (nem Jesus desejou sofrer sozinho; Ele levou 3 dos mais chegados amigos para “sofrer” com Ele, mesmo sabendo que aquela situação não estava à altura deles)…
“A reação diante do sofrimento é uma atribuição dada à congregação”, diz Eugene Peterson. É por essa razão que o povo de Deus deverá sentir a aflição dos perdidos, dos que ainda não conhecem a salvação em Cristo! Toda a igreja de Jesus deveria sofrer o “sofrimento do Espírito”, empenhado em “convencer o mundo, da culpa, do castigo e do juízo”. Mas como é que isso pode acontecer se não houver proclamação? Como diria Isaías: “como ouvirão se não há quem pregue?”…

Não foi o pecado de uma pessoa que resultou na desolação da queda de Jerusalém. Foi o pecado coletivo. Hoje, quanto maior for o sofrimento coletivo pelas vidas sem Cristo, dentro das nossas comunidades, maior será o avanço missionário pelo mundo; as congregações cristãs precisam reunir-se à volta dos pecadores perdidos, para que eles entendam a dor da separação de Deus. Se obtermos consciência da urgência, não demoraremos em levantar-nos para dispor o coração para ir.

“Levanta-te…” diz Jeremias! Nas vigílias da noite, às 3h00 da manhã. Há anos atrás fui incomodado por este versículo e senti necessidade de colocar o despertador a despertar às 3h00 da madrugada, levantar-me da minha cama e orar; convidei alguns outros colegas a fazerem o mesmo todas as quartas feiras. Apenas um se dispôs!

Ninguém vai orar se não se levantar do estado de apatia e de amor por si mesmo, para se dedicar à urgência dos perdidos que desfalecem de fome espiritual na esquina de todas as ruas. “A invasão babilónica” está a acontecer e já entrou nos “muros” das nossas cidades e está às portas dos nossos lugares de cultos, onde nos deliciamos com boa música, bons programas temáticos, pregações açucaradas e estofos razoáveis para os nossos traseiros. Mas a “invasão babilónica” só incomoda as almas dos perdidos, pois nós continuamos resguardados no interior das nossas congregações, deixando que alguns dos nossos familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho sejam arrebatados pelos “soldados do exército babilónico”, fazendo deles escravos pela eternidade.

A ordem a Jonas também é a mesma que nos é dada a nós – “Dispõe-te/Levanta-te, vai à grande cidade de Nínive e proclama contra ela a mensagem que te digo”. Por isso, faz sentido que ouçamos o desafio de Jeremias, que é o desafio do Espírito Santo – “Levanta-te! Clama! Derrama o coração!”

Teotónio Cavaco

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