Um Mundo sem Cristãos à Vista

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por Fernando Soares Loja

Tenho tanta coisa que gostaria de vos dizer que não sei por onde começar. Para mim o mais difícil é sempre escolher um tema. As dificuldades convencem-nos das nossas insuficiências e a convicção da insuficiência aproxima-nos de Deus.

Consciente da minha insuficiência, durante dias pedi a Deus que me ajudasse na escolha do tema. Se não vos agradar, saibam que não sou o único responsável pela escolha feita.

Quero falar-vos da quase irrelevância dos cristãos no Portugal de hoje. Digo quase irrelevância para não me acusarem de estar a ser radical. Mas se os cristãos não são quase irrelevantes, alguém me pode explicar como é que se chegou a este estado de coisas?

A nossa sociedade está muito doente e nós até já nem damos por isso. A nossa sociedade sofre de uma doença crónica, tão crónica que nós achamos que é o estado normal da sociedade.

Já repararam que palavras como “imoralidade”, “bons costumes”, “adultério” deixaram de se ler nos jornais ou ouvir nos meios de comunicação? Não é que já não haja imoralidade ou se tenha deixado de cometer adultério. Só que já ninguém reage, encolhe-se os ombros, “ninguém tem nada a ver com isso”.

O adultério já foi crime punido com o degredo para África ou com prisão. Até há pouco tempo era fundamento de divórcio e pedido de indemnização, mas hoje a noção de culpa pelo fracasso do casamento desapareceu do sistema. O casamento já não é um contrato para a vida: é mais fácil a um dos cônjuges acabar com o casamento do que um senhorio com um arrendamento ou um patrão com um contrato de trabalho. Os cônjuges podem divorciar-se por mútuo consentimento “enquanto o diabo esfrega um olho” com extrema facilidade e baixos custos.

A nossa sociedade recuperou recentemente o instituto de repúdio: um dos cônjuges divorcia-se do outro sem ter que lhe dar justificações e mesmo contra a sua vontade. Vivemos num país em que a lei permite que homens casem com homens e mulheres casem com mulheres.

Condenamos Herodes, o Grande, por ter mandado matar algumas centenas de meninos, mas em Portugal todos os anos milhares de mulheres grávidas matam os seus bebés até às 10 semanas de vida intra-uterina sem qualquer justificação e com a assistência médica paga pelo estado (e nestes últimos três anos sabe-se oficialmente que houve mulheres que o fizeram duas e três vezes por ano).

Vivemos num país:

  • Em que o governo prepara legislação que permite que crianças sejam “adoptadas” (com outro nome) por casais homossexuais;
  • Em que a corrupção é elevada e praticada com todo o descaramento;
  • Em que o estado nada faz para diminuir a prostituição;
  • Em que a pedofilia é praticada em todos os níveis sociais;
  • Em que vivem e são exploradas como escravas sexuais milhares de mulheres estrangeiras contra a sua vontade;
  • Vivemos num país em que dentro de poucos anos será possível antecipar a morte dos doentes para os quais não há esperança de recuperação.

Esta é a sociedade em que vivemos. Como é isto possível? Como chegamos aqui? Onde estão os cristãos? Alguns vivem em conventos. Outros, como se vivessem em conventos de pedra e cal, vivem virados para dentro das suas igrejas, recusam inserir-se na sociedade servindo em cargos onde podem influenciar o rumo das coisas. A maioria acha que “chafurdar na política é incompatível com a pureza do seu estatuto de cristão.

Jesus disse “v´s sois o sal da Terra e se o sal não salgar para mais nada serve senão para ser posto no caminho para ser pisado pelos homens”, mas a igreja de Cristo tem andado afastada dos centros de decisão política, olha com suspensão e não quer nada com a política e, portanto, deixa os lugares de decisão para aqueles que não têm valores cristãos.

É tempo de os cristãos reponderarem a sua posição face à intervenção política. Não querendo nada com a politica, como se tivesse lepra, a maioria dos cristãos até tem contribuído com o seu voto para a implementação de politicas claramente contrárias à ética cristã. Muitos cristãos em Portugal têm votado em partidos que têm uma agenda politica claramente contrária à vontade de Deus. Muitos cristãos têm votado (e receio que continuem a votar) em partidos que têm contribuído para legalizar o homicídio de inocentes que é o aborto, sabendo que esses partidos em que votam defendem o homicídio de inocentes e que vão usar o peso que t~em na Assembleia da República para legalizar um crime.

Muitos cristãos em Portugal votaram em partidos que se sabia que queriam legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sabendo-o, mesmo assim votaram e são, portanto, cúmplices dessa abominação. Receio que muitos cristãos continuem a votar da mesma forma, mesmo quando for evidente que os partidos nos quais votam vão legalizar a adição de crianças por “casais homossexuais”, e continuem a votar da mesma maneira mesmo sabendo que os partidos em que votam vão legalizar a eutanásia. E depois disso irão criminalizar o discurso contra a homossexualidade como discurso de ódio, mesmo que o discurso seja feito de um púlpito, e tirar benefício fiscais às igrejas que denunciarem os erros do programa politico do governo, como está a acontecer nos Estados Unidos da América.

Esta observação leva-nos a questionar se uma parte significativa dos cristãos não sofre de uma incapacidade mental que leva a pessoa a afirmar uma coisa e a fazer outra que lhe é contrária, ou seja, a viver sem integridade pensando que é íntegra.

Porque se eu afirmo que sou contra a legalização do aborto e contra os casamentos entre homossexuais e contra a adopção por casais homossexuais e contra a eutanásia, mas voto em quem legisla favorecendo o aborto e os casamentos entre pessoas do mesmo sexo e a adopção por homossexuais e a eutanásia, o meu discurso é incoerente com a minha pratica e mais valia que eu estivesse calado. Ou melhor ainda, não votasse em quem votei.

O mundo em que vivemos não prova o fracasso de Cristo, mas prova que a generalidade dos seguidores de Cristo, eu incluído, fracassaram no combate ao Mal.

Se os que se dizem cristãos tivessem uma prática coerente com o discurso e fossem mais influentes na sociedade, o mundo que hoje temos seria diferente, para melhor.

Alguém escreveu que para que o Mal triunfe só é necessário que os que fazem o bem, nada façam.

Que Deus nos dê sabedoria, que nos dê a visão e coragem para sermos relevantes na nossa sociedade.

(Artigo publicado in “O Semeador Baptista” Nº1056 de 2011)

Abril 23rd, 2016|Artigos|1 Comment

One Comment

  1. Joaquim Almeida 26/04/2016 at 17:34 - Reply

    Irmão Fernando Loja

    Gostei na íntegra do seu artigo e subscrevo as ideias expostas. Muito bom.
    Que o Senhor abençoe o seu ministério na CBP e a todos quantos fazem parte da sua equipe.
    Em Cristo,

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