A Lixeira

Há uns meses atrás, numa das minhas paragens “obrigatórias”, já me tinha surpreendido com este desabafo: afinal, já tiraram daqui aquele entulho. Com efeito, aquela desagradável surpresa de há um ou dois anos atrás, em que alguém fez do “meu ermo” um vazadouro de lixo, ainda estava presente na minha mente, porque nessa altura me tinha provocado esta inevitável reflexão: pois é, ó Pai…também eu venho aqui, nas minhas aflições e alegrias (mais das primeiras, menos das segundas!) “descarregar” o meu “lixo”…

Mas ontem, vindo dos lados de Monção, lá voltei, agora sem grandes “pesos” para a descarga, mas sob a fortíssima chuvada que me tinha obrigado a uma condução lenta serra acima. E, no conforto interior da viatura, lá a encostei nessa curva esquecida, com a frente quase tocando a verdejante vegetação espontânea à minha frente. Foi quando, numa observação mais atenta, me dou conta de que afinal a lixeira não tinha sido removida! Lá estava, intacta, mas agora escondida sob o resultado da pujante primavera em que a mãe-natureza a tinha semeado e recoberto de vegetação! Estava linda! Cheia de florinhas amarelas que rodeavam, no seu topo, um grande pé de dedaleira com três rebentos, em que o central já tinha um bom meio metro, escoltado por dois laterais mais curtos. Como estavam belos, com as suas flores vermelhas em forma de sinos crescendo em tamanho do cimo à base!

Foi uma espécie de choque! Afinal, o entulho tinha servido de adubo fertilizante, transformando uma lixeira num mini-jardim! E, no contexto das minhas históricas visitas e preces, esta reflexão começou a ganhar conteúdo… De súbito, veio-me à mente a recente visita que, com minha mulher, tínhamos feito ao majestoso templo da Sagrada Família em Barcelona… Nele, Gaudi estampou, de modo eloquente, o seu tributo à natureza, decorando com elementos naturais (vegetais e animais) essa jóia arquitectónica que é esse magnífico templo! E ali, diante dos meus olhos, estava uma lindíssima réplica natural, com a “torre” mais alta, ladeada por duas menores, todas elas muito esguias, com os seus “sinos” encarnados rodeados pela natureza em flor…

Dizem-me que os devaneios poéticos, também são peças do lixo da vida. Pois sejam… Mas ver a Sagrada Família, por dentro e por fora, em grande e em pequeno, na glória de Gaudi e na simplicidade de uma dedaleira, provocou-me uma indescritível alegria interior!

Ali estavam, diante de mim, as minhas misérias transformadas em flores… Amém.

 

A  LIXEIRA

No ermo que é cela
De monge sofrido
Buraco escondido
Na serra de Deus …
E um dia no tempo
Lixeira vazada
Na curva da estrada
É obra de ateus …
E ali estava posto
Perfeito quadro
Do choro e pecado
Dos meus livramentos
Até que escondida
Por mãe-primavera
Com flores me espera
De verdes rebentos!

Silas Pêgo
Portela do Vade, 16.05.08

 

Julho 26th, 2016|semeador|0 Comments

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