Um Servo Singular

Pastor José Leovegildo Caetano Gonçalves (1931-2015): Um servo singular

A lembrança que perdura é a de um homem simples, humilde e que ria com sonoras gargalhadas. Na memória de alguns ficarão ainda as suas distrações e a sua bonomia.

Como Pastor tinha uma atitude acolhedora, com “todo o tempo do mundo” para ouvir, mais do que para falar! Tinha mesmo longos silêncios que diziam muito. Os jovens frequentavam assiduamente a Igreja, porque amavam o seu Pastor, queriam os seus conselhos e eram por ele acarinhados.

Por outro lado, tinha uma personalidade inquieta, visionária, à frente do seu tempo, com uma visão lúcida sobre a missão da Igreja. O seu grande amor às pessoas causou-lhe bastantes dissabores perante alguns. Era um homem muito calmo com alguns picos de exaltação.

Materialmente era desprendido como poucos. Com o que herdou dos pais e o apoio de amigos, comprou a Quinta da Bela Vista e pô-la ao serviço de Deus, com a finalidade principal de salvar tantos das garras da droga.

O que distinguir mais na sua personalidade? Confiava incondicionalmente no Deus que amava. Aceitava desafios de qualquer dimensão e, mesmo sem nenhum orçamento de base, confiava na matemática divina.

Era um homem bom: na sua casa e à sua mesa havia sempre lugar para mais um, ao ponto de faltar, por vezes, alimento para a sua própria família. Não pedia nada, mas aceitava com gratidão tudo quanto lhe ofereciam.

Nasceu em Lisboa, no dia 9 de Março de 1931, tendo-se convertido aos 12 anos no Brasil, para onde tinha ido com os seus pais com 8 anos de idade. Pertenceu à Primeira Igreja Baptista de Vitória, onde foi baptizado pelo Pastor Walter Kaschel. Fez trabalho de evangelização e serviço social.

Em 1952 regressou a Portugal e tirou o curso de Oficial da Marinha Mercante, exercendo esta profissão até ir para Rüschlikon na Suíça, em 1957. Aqui tirou o curso de bacharel em Teologia no International Baptist Theological Seminary, onde conheceu a sua futura esposa, a jovem sueca Ulla Cajsa Axelson, também estudante. Mais tarde, tendo constituído família, foram pais do Pedro, do Miguel e do João.

Em 25 de Março de 1962, novamente em Portugal, o Pastor José Gonçalves foi consagrado ao ministério na Igreja Baptista de Cedofeita, a qual pastoreou durante 13 anos.  Foi eleito Presidente da Convenção Baptista Portuguesa, de 1964 a 1968 e de 1971 a 1974, tendo ainda desempenhado funções de Presidente do Departamento da Mocidade e de Secretário-Geral da Federação Baptista Europeia.

Durante o seu Pastorado em Cedofeita, foram abertos trabalhos missionários em Francos, Vila Nova de Gaia e S. Mamede que, mais tarde, deram origem a igrejas.

Visitou a União Soviética mais do que uma vez em trabalho evangelístico e de apoio aos irmãos, tendo publicado em 1963 o livro “Os Baptistas na Rússia”.

Durante vinte anos foi Director em Portugal do Movimento Estudantil e Profissional para Cristo, actualmente AGAPE. Promoveu e liderou campanhas de evangelização, destacando-se “Aqui há vida Portugal” em 1981 e “Explo 85”.

Aos 60 anos de idade partiu para África, onde juntamente com a sua esposa, continuou o trabalho de evangelização. Complementarmente desenvolveu a chamada “Ponte de Amor Portugal-África”, através da qual eram canalizadas ofertas de crentes e de amigos que o apoiavam financeiramente na distribuição de Bíblias, material de ensino, roupas, óculos, material ortopédico, brinquedos e comida. Todos os meses, meticulosamente escrito à mão, apresentava contas de tudo quanto gastava. Foi sempre um exemplo de dedicação e seriedade.

O Pastor José L. C. Gonçalves teve uma vida rica e abundante com Deus. Fundamentalmente foi um servo singular que experimentou o amor de Deus e o transmitiu ao próximo, de uma forma fiel e dedicada.

Tão simples e tão grandioso!

Júlia Abrantes

Julho 26th, 2016|semeador|0 Comments

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