ARC & Maria Antonieta

Quem passa pelo Largo de Santos em Lisboa e sobe a escadaria da Igreja Lusitana, os Marianos como lhe chamavam pois fora um convento Mariano antes de o complexo ser vendido em hasta pública ainda no século XIX (pelos vistos havia igrejas de sobra, dava jeito fazer entrar em caixa algum dinheiro), não imagina que a placidez daquele adro e daqueles claustros dava lugar a vida exuberante aos sábados à tarde. Magotes de miúdos a correr, a gritar, nas brincadeiras e diabruras próprias da idade. Passou-se isto no princípio da década de 50 do século findo.

Naquela igreja frequentada por bastantes pessoas da médio-burguesia lisboeta houve uma tomada de consciência social, motivada sobretudo por uma pessoa, José Balão. Era mesmo o nome dele, Balão, e com um bocadinho de malícia aplicava-se também ao perímetro abdominal. Nada sei sobre a génesis da ARC – Acção de Renovação Cristã, quem foram os apoiantes do programa e das actividades, quem contribuiu com os dinheiros necessários e não foram poucos. Penso que a iniciativa tenha partido de José Balão, de retórica brilhante, convincente, envolvendo os ouvintes, um líder com preocupações de carácter social. Naquele tempo eu tocava regularmente o órgão nos Marianos e colaborava nas festas sociais ao piano. Fui chamado para participar. Também não sei como foi passada palavra, mas numa bela tarde de sábado o salão de festas da igreja encheu-se de rapaziada ali da Esperança e da Madragoa. O salão de festas devia ter lugar para umas 100 pessoas, pelo menos, mas nesse dia acomodou provavelmente o dobro; os miúdos sentavam-se a dois nas cadeiras ou mesmo no chão. Estavam ali para ver um filme.

Antes do filme, José Balão dirigiu à rapaziada uma breve “mensagem”. (O meu pai convidou-o algumas vezes para pregar na Igreja da Rua do Olival. Não havia dúvida, ele era brilhante mas esquecia-se do tempo…) O curioso naqueles sábados era o amainar do reboliço e da irreverência daquela malta indisciplinada quando o Sr. Balão ia lá para a frente. Respeitavam-no, aceitavam-no como líder. Depois do filme houve um lanche, devorado num ápice.

A “renovação” era contagiante, apareceram voluntários para colaborar.  Apesar da autoridade nata de José Balão era imprescindível haver ajudas para enquadrar aquela malta com excedentes de energia e necessidade de expansão sonora.  E preparar um lanche para tanta rapaziada exigia a ajuda e empenho de muitas mãos . Antes do filme davam-se aulas de ginástica para quem quisesse participar; o número era reduzido mas as aulas efectuavam-se com regularidade. José da Ressurreição, da Igreja da Rua do Olival, sargento da marinha e instrutor de ginástica punha os rapazes a mexer.

Os primeiros filmes passavam num projector de 16 mm. Mas era tempo de renovação em todos os sentidos; avançaram obras de remodelação do salão de festas. Quando retomaram as actividades aos sábados havia na sala, para grande surpresa, uma cabine com um projector de 35 mm, o formato profissional, onde passavam filmes de cinema a sério. Donde veio o dinheiro? Não sei, a ARC tinha nas suas fileiras gente com posses e motivada. É a prova de que a ARC não era só José Balão. No horizonte limitado do mundo em que eu vivia aquilo devia ter custado uma fortuna. Mas na adolescência e juventude não se perde tempo com esses detalhes, o que contava era a actividade. Um estrado em patamares, como nos cinemas verdadeiros, cobria o chão de lajes de pedra do antigo refeitório de convento. As cabeças das pessoas mais à frente incomodavam menos.

A pequena prédica inicial passou a ser enquadrada por cânticos à boa maneira evangélica. Mas como conseguir pôr aquela sala a cantar? Cantar não era o forte de José Balão. Microfones e alto falantes não havia. Surgiu a ideia de ensaiar um pequeno grupo na esperança que conseguissem contagiar a tropa. Aqui entrou em cena a Nieta, Maria Antonieta de seu nome, mas a forma curta soava melhor e exprimia carinho. Eu maltratava o piano com toda a energia disponível mas os miúdos ou não ouviam ou não me ligavam nenhuma, o mais provável. Espontaneamente, nada estava combinado, a Nieta levantou-se, foi para a frente do grupo, começou a reger e deu-se o milagre, a rapaziada entrou no ritmo e gostou de cantar. Tinha nascido o coro, baptizado logo a seguir por algum espírito romântico de “Os pintassilgos das Janelas Verdes”, nome que ficou. Faziam um brilharete com o “Aleluia, aleluia, graças a Deus”. Não tinha mais texto, aprendia-se depressa. Nas festas lá apareciam os “Pintassilgos” sempre regidos pela Nieta que se sentia no seu meio. Talvez esta experiência tenha contribuído bastante para a sua decisão de se dedicar ao trabalho com crianças.

Porque só falo de rapazes? Não sei, não me lembro de ter visto raparigas, se houve seriam poucas. Provavelmente consequência da separação de sexos no ensino oficial, meninas não se misturavam com rapazes e muito menos com estes da rua. Lembro-me sim do odor da sala quando nos aproximávamos da porta de entrada que banhos provavelmente só na docas e no verão.

Mas a ARC não se limitava às actividades com os rapazes da rua. Aos sábados à noite realizavam-se sessões de cinema para os adultos, o salão social passou a ser um ponto de encontro fora dos cultos dominicais. A sinergia, para usar uma palavra moderna, activou a juventude da igreja e esta aderiu à renovação. Organizavam-se com regularidade festas sociais, com as cantigas em moda, com danças regionais, na altura muito apreciadas, poesias, peças de teatro. Havia gente dotada que ali encontrou o espaço para expandir a sua criatividade. Os cenários eram muito elogiados, os artistas muito aplaudidos, por certo com a boa-vontade do público perante o trabalho de amadores mas não resta dúvida que a preparação das festas era para todos os participantes um período excitante e emocionante. Passei muito tempo naquele salão de festas a treinar as modinhas e a ensaiar  cantoras e cantores.

A memória já não me ajuda a ir mais além. Lembro-me de várias festas de Natal com o salão cheio de miudagem, lembro-me de acompanhar as senhoras nas compras das prendas de Natal para os miúdos do coro  (conhecia-os, avaliava o tamanho das peúgas e das camisolas), lembro-me de várias festas sociais e de muitos dos participantes, mas não sei como acabou a ARC. Penso que foi esmorecendo, que não apareceu um sucessor para o José Balão cada vez mais absorbido pela profissão, talvez os filmes tenham deixado de interessar a rapaziada, talvez um pouco de tudo isto. Também já não encontro os programas das festas, uns impressos outros tirados a “stencil”, devem estar algures na arrecadação. E poucos dos participantes nestes acontecimentos ainda estão connosco. Ao escrever revejo aquele salão comprido, estreito, na realidade sem nenhum encanto especial, mas transformado por algumas horas  num lugar aprazível devido aquela explosão de vida juvenil.

Berlim, Dez.2015                João Pinto de Carvalho

Tia Nieta e Caleb

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Tia Nieta no Acampamento

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Tia Nieta e o mini

Tia Nieta e o mini

Julho 26th, 2016|semeador|0 Comments

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